A redução em 90% do esforço físico dedicado a tarefas do campo e o aumento da produtividade são os resultados mais significativos dos testes preliminares sobre o uso de máquinas agrícolas chinesas de pequeno porte nas propriedades rurais familiares do Nordeste brasileiro.
Os dados são do relatório “Mecanização na Agricultura Familiar”, uma produção do Consórcio Nordeste em parceria com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), que analisa os impactos das ações governamentais voltadas para o fomento da mecanização na agricultura familiar.
O relatório também analisa a avaliação dos agricultores familiares da cidade de Apodi, no Rio Grande do Norte, de Russas, no Ceará, e de Itapecuru Mirim, no Maranhão, que receberam e estão testando máquinas agrícolas chinesas, como tratores, motocultivadores e colheitadeiras. Fruto do acordo de cooperação internacional firmado, em 2022, entre o Consórcio Nordeste e as instituições da China, B&R Instituto Internacional de Inovação de Equipamentos Agrícolas e Agricultura Inteligente (IIIAESA) e a Associação de Fabricantes de Máquinas Agrícolas da China (CAAMM), além da Associação Internacional para Cooperação Popular (IAPC).
“Nossa parceria com a China vem no sentido de buscar a superação dos desafios históricos e estruturais de introdução de tecnologias modernas em nossa agricultura familiar. O setor é um pilar fundamental para a segurança alimentar e o Nordeste concentra, aproximadamente, 50% dos estabelecimentos familiares do Brasil, sendo que desses, apenas 3% são mecanizados. Fatos que ampliam nossa responsabilidade na busca por políticas públicas adequadas”, explica o coordenador da Câmara Temática de Agricultura Familiar do Consórcio Nordeste e secretário de Desenvolvimento Rural do Rio Grande do Norte, Alexandre Lima.
Protagonismo do Nordeste
O projeto-piloto implementado em Apodi, no Rio Grande do Norte, disponibilizou maquinário agrícola para cerca de 150 famílias testarem em seu dia a dia no preparo do solo, na semeadura e na colheita.
“Os resultados em Apodi são muito positivos e expressivos. Por exemplo, a colheita de um hectare de arroz, que antes demandava 25 dias de trabalho manual, agora é concluída em apenas um dia com o uso dos equipamentos chineses”, comemora Alexandre.
Em 2024, o projeto ganhou mais um reforço com a criação da primeira Residência Tecnológica Brasil-China para Mecanização da Agricultura Familiar na América Latina, em parceria com universidades e institutos locais, que tem o objetivo de ser um centro de capacitação, pesquisa e intercâmbio, fortalecendo ainda mais a colaboração e a disseminação das tecnologias.

Ganhos em produtividade e qualidade de vida
Segundo o relatório, os impactos social e econômico do projeto são muito positivos, pois trazem resultados imediatos como a redução do tempo de trabalho, o aumento da produtividade e a diversidade da produção, o que significa um incremento significativo para a receita da família.
Além de reduzir a penosidade do trabalho no campo, a adoção de maquinário apropriado para as pequenas propriedades rurais também contribui para reter os jovens no campo e incluir as mulheres.
“O relatório aponta que as mulheres perceberam uma redução de até 90% na carga de trabalho, o que permitiu um ganho de tempo para outras atividades, sem falar na superação de medos e na apropriação de técnicas antes utilizadas mais pelos homens”, exemplifica Alexandre.
Desafios técnicos
A análise das informações revelou também que, apesar de serem máquinas promissoras para a agricultura familiar, nenhuma delas estava adequada integralmente à Norma Regulamentadora-12 (NR-12), da legislação brasileira.
Foi detectado falta de manuais de instrução e sinalizações de segurança em português, algumas proteções consideradas inadequadas para partes móveis ou perigosas, aspectos ergonômicos que necessitam de ajuste e necessidade de sistemas de partida elétrica mais práticos.
“O centro de pesquisa e este período de adaptação servem justamente para avaliarmos essas questões das necessidades de adequação das máquinas ao biotipo brasileiro, ao modo de produção e à nossa legislação de segurança”, explica o coordenador da Câmara Temática.
Agricultura Familiar e Segurança Alimentar
O Nordeste concentra 66% dos estabelecimentos familiares com menos de 10 hectares, segundo o IBGE (2017). Apesar de produzirem a maior parte dos alimentos básicos, apenas 2,3% dessas propriedades possuíam tratores em 2017, por exemplo. “É preciso tecnificar e modernizar a agricultura familiar da região para ampliar a produção de alimentos saudáveis”, finaliza Alexandre Lima.
Aumentar a mecanização na agricultura familiar é um grande desafio e está na pauta das políticas públicas. O relatório do PNUD aponta que o Programa Mais Alimentos, do Governo Federal, já destinou R$ 18,3 bilhões em crédito para aquisição de máquinas entre 2023 e 2025, com crescimento de 30% no financiamento para o Nordeste.
Os governos estaduais do Nordeste também têm implementado diversas iniciativas para impulsionar a mecanização e modernização da agricultura familiar. O Rio Grande do Norte destacou-se como pioneiro na parceria com a China e inaugurando a primeira Residência Tecnológica Brasil-China. Já Alagoas investiu R$ 2,3 milhões na aquisição de tratores e microtratores, beneficiando cerca de 1,6 mil agricultores, enquanto o Ceará aprovou a Lei Estadual nº 17.609/21 para modernização agrícola, liberando 183 tratores e destinando R$ 572 milhões ao combate à fome e ao desenvolvimento rural em 2025.
No Maranhão, a cooperação com a China permitiu a introdução de colheitadeiras de arroz que reduziram o tempo de colheita de 10 dias para apenas oito horas, com planos para instalar fábricas locais de máquinas adaptadas. O Piauí focou na distribuição de tratores e microtratores, com investimentos de R$ 7 milhões em equipamentos via emendas parlamentares, além de capacitações para agricultores. Sergipe, por sua vez, simplificou o acesso ao crédito rural com a isenção de licenciamento ambiental para financiamento de máquinas, além de firmar parcerias com universidades para treinamento técnico.
Essas ações refletem um esforço conjunto para superar a baixa mecanização histórica no Nordeste, reduzir o trabalho manual e aumentar a renda no campo. A articulação via Consórcio Nordeste tem sido fundamental para ampliar o impacto dessas políticas, alinhando-as às demandas locais e a iniciativas federais, como o Programa Mais Alimentos.